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Reações hansênicas
01/10/2014
Publicado por: Luis Fernando Johnston Costa

Introdução


Reações Hansênicas é o termo para o grupo de manifestações cutâneas, oftálmicas e neurais decorrentes da inflamação causa por bacilos de Mycobacterium leprae. Na pele, as lesões são bastante incômodas, mas raramente graves. Nos nervos, podem causar graves danos, como a perda da função originada do edema e da pressão no nervo. Os mais afetados são os da pálpebra, das mãos e dos pés. Nos olhos, dor e vermelhidão são os achados clínicos mais prevalentes; pode haver ainda diminuição da acuidade visual e fraqueza muscular para “cerrar as pálpebras”.

Qualquer paciente com hanseníase corre risco de ter reação hansênica; aproximadamente 25 a 30% dos pacientes com hanseníase podem desenvolver reações. Pacientes com hanseníase multibacilar (MB) que já tiverem danos neurais ao diagnóstico devem ter acompanhamento mais frequente, já que até 65% poderá desenvolver novos danos neurais.


Reações tipo 1


As reações do tipo 1, ou reações reversas são causadas pelo aumento da atividade do sistema imunológico lutando contra o bacilo da hanseníase, ou mesmo por resto de bacilos mortos. Ocorre a instalação de um processo inflamatório agudo, principalmente na pele e nos nervos. Em torno de 25% de todos os pacientes com hanseníase pode ter reação tipo 1, e a grande maioria desenvolve sintomas dentro dos seis primeiros meses de tratamento

Os principais achados clínicos são:

  1. Infiltração da lesão de pele, com edema, eritema e calor. As lesões não são geralmente dolorosas, mas pode haver algum desconforto.
  2. Pode haver edema de membros ou de face e hipersensibilidade dos nervos ao toque e a perda de função
  3. Não cursa com febre
  4.  Os músculos envolvidos no fechamento das pálpebras podem ser afetados, mas o olho propriamente dito não é afetado pela reação tipo 1.


A maior parte das reações tipo 1 involuem dentro de seis meses, mas sem tratamento, seus efeitos sobre os nervos levariam à perda permanente da função.



Reação tipo 2


Menos frequente que a reação tipo 1, afeta somente os pacientes com hanseníase multibacilar. Em sua grande maioria, ocorre durante os primeiros três anos após o início da PQT, podendo aparecer anos após o término do tratamento, afetando apenas a pele.

Os principais achados clínicos são:

1.     Mal-estar geral e febre

  1. Destruição bacilar acentuada, liberação de antígenos M.leprae e indução de anticorpo específico, o anti PGL1
  2. Manifestação clínica mais freqüente é o Eritema Nodoso Hansênico (ENH).
  3. Síndrome do imunocomplexo circulante
  4. ENH: nódulos subcutâneos, dolorosos e eritematosos. Mais frequentes em pernas e braços, e menos no tronco. Não associados com lesões de pele da hanseníase. A hipersensibilidade ao toque nos nódulos é um importante sinal clínico.
  5. Podem evoluir para pústulas e bolhas, com posterior ulceração e formação de necrose.
  6. Microscopia e hemograma: leucocitose com neutrofília e aumento do número de plaquetas; aumento de proteínas da inflamação aguda; proteína C-reativa e a1 tripsina; aumento de IgG e IgM; Complemento: aumento de C2 e C3; proteinúria.
  7. Biópsia da lesão: infiltrado inflamatório, neutrofílico, perivascular, em derme reticular, compatível com vasculite; bacilos numerosos e granulosos.


Tratamento


Reações leves de ambos os tipos (reação reversa e ENH) podem ser tratadas

na rede básica com ácido acetil-salicílico (AAS, aspirina - a dose do adulto é de 600mg até seis vezes por dia).

Corticosteróide: prednisona é a mais comumente utilizada. É facilmente absorvida quando utilizada por via oral. 1-2mg/kg/dia, 12 a 24semanas.

O descanso é importante em todas as condições inflamatórias. As imobilizações podem ser aplicadas aos segmentos afetados. Exercícios passivos ajudam a manter o movimento de todas as articulações afetadas. Mais tarde os exercícios ativos ajudam a restaurar a força muscular.

Em alguns casos a cirurgia pode auxiliar a dor neural crônica e a restauração da função nervosa.


Bibliografia


Sociedade Brasileira de Hansenologia e Sociedade Brasileira de Dermatologia - Hanseníase: Episódios Reacionais;

The International Federation of Anti-Leprosy Associations (ILEP) - Como reconhecer e tratar reações hansênicas;

Ura S. Tratamento e controle das reações hansênicas. Hansen Int. 2007;32(1): 67-70.

Souza, Linton Wallis Figueiredo - Leprosy reactions in discharged patients following cure by multidrug therapy; Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 43(6):737-739, nov-dez, 2010